Como diz a popular brincadeira de linguagem: uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa
Por Wilson de Oliveira Neto, historiador

A captura e a extração do ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, por efetivos das Forças Armadas dos Estados Unidos, realizadas no dia 3, se tornaram novos marcadores políticos na opinião pública brasileira. A violação da soberania da Venezuela foi um dos argumentos listados para condenar a operação orquestrada pela gestão do presidente Donald Trump.
Em resposta, passaram a circular nas redes sociais publicações em que o ataque contra a Venezuela foi comparado com a invasão aliada ao território alemão, durante a Segunda Guerra Mundial. “Vamos fazer um exercício mental com a Esquerda. Voltamos à Alemanha Nazista, e Hitler ainda está aqui. Invadir a Alemanha para capturá-lo seria um atentado à soberania?”, indaga uma das publicações.
Mídias de massa
Estímulo – Estamos inseridos em um regime de comunicação baseado nas mídias eletrônicas de massa. Byung-Chul Han explica que um dos seus efeitos é a destruição de todo discurso racional fundamentado por uma cultura livresca, sendo substituído por uma comunicação afetiva, em que não ganham os melhores argumentos, “mas as informações com maior potencial de estimular”.
As publicações que compararam a Venezuela com a Alemanha vão ao encontro do que foi constatado por Byung-Chul Han, na medida em que elas estimulam afetos e emoções típicos da comunicação em redes sociais. Contudo, desinformam e propagam o anacronismo travestido de “lacradinha”.
Duas coalizações
Conflito militar – A Segunda Guerra Mundial foi um conflito militar internacional ocorrido entre 1939 e 1945, em que combateram duas coalizões de países: os Aliados e o Eixo. Richard Overy a definiu como a última guerra imperial, um conflito entre potências que procuraram reorganizar a ordem internacional conforme suas necessidades e projetos.
Embora autores do passado e do presente, a exemplo de A. J. P. Taylor, situem as origens da Segunda Guerra Mundial nas dinâmicas da política europeia das décadas de 20 e 30 do século passado, o revisionismo territorial alemão e as investidas do governo nazista contra a Áustria, Tchecoslováquia e, principalmente, Polônia, foram fundamentais para o início do conflito, em 1939.
Avanço aliado
Território alemão – O avanço aliado sobre o território alemão, que resultou na sua destruição e na rendição incondicional do seu governo, em maio de 1945, não tem nada a ver com soberania e, muito menos, com o que houve na Venezuela, apesar dos venezuelanos terem o direito de celebrar o que ocorreu com Maduro, embora seja cedo para falar em “Venezuela livre”.
Desfecho
Seis anos – A invasão aliada, seguida da derrota, divisão e ocupação da Alemanha foram o desfecho de seis anos de guerra mundial, pelos quais o governo nazista também foi responsável. Como diz uma popular brincadeira de linguagem: uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa.
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