O nazismo é uma delas. E ponto final.
Por Wilson de Oliveira Neto,
historiador

“Foda-se a democracia, aqui é nazismo”, afirmou um jovem no final de um vídeo caseiro que vem chamando a atenção do público nas redes sociais nos últimos dias. Trata-se de uma gravação curta, com 13 segundos de duração, feita em um ambiente doméstico, na qual seu protagonista veste uma camiseta da “CBF”. Em posição de sentido, ele faz uma saudação associada ao nazismo, enquanto outra pessoa prepara uma bebida e dá vivas à democracia: “O mais importante é: viva a democracia”.
O vídeo foi publicado pelo perfil da empresa de notícias e mídia “Nossas Notícias”, de Rio Negrinho, Santa Catarina, no dia 29 de outubro. Na publicação, o jovem afirmou que se tratava de uma brincadeira feita entre amigos, em sua própria casa, e que o vídeo teria sido retirado de contexto.
Também declarou não compartilhar da ideologia expressa na gravação e pediu que as pessoas não continuassem divulgando o conteúdo. Segundo o próprio veículo, as imagens foram encaminhadas à Polícia Civil, que informou que analisaria o caso e avaliaria as medidas cabíveis.
Dúvidas
Referências – Tenho minhas dúvidas de que o pedido possa ser atendido, especialmente porque estamos diante de algo que vai além de uma simples brincadeira de mau gosto. Não é a primeira vez que alguém faz uma menção ao nazismo de maneira irresponsável, o fato se torna público e, quando o bicho pega, surge a justificativa: “Ah, foi brincadeira, eu não sou nazista”.
Mais um caso do que chamarei de “nazismo recreativo”: o recurso à brincadeira, à ironia ou ao humor para banalizar símbolos, gestos e referências associados ao nazismo e, depois, minimizar a responsabilidade por aquilo que foi feito.
A expressão é inspirada no conceito de “racismo recreativo”, do jurista Adilson Moreira. Em sua análise, o humor pode funcionar como mecanismo de reprodução de estereótipos raciais e de hostilidade contra grupos racialmente discriminados, ao mesmo tempo que oferece ao autor da manifestação uma espécie de proteção proporcionada pelo argumento de que “era apenas uma piada”.
Mecanismo semelhante
“Nazismo recreativo” – Não pretendo equiparar o “nazismo recreativo” ao conceito de racismo recreativo elaborado por Moreira. A aproximação serve para pensar um mecanismo semelhante: a utilização da brincadeira como estratégia para banalizar uma manifestação ofensiva e, posteriormente, afastar dela qualquer responsabilidade.
No caso do nazismo, isso significa transformar em objeto de diversão gestos, símbolos ou referências associados a uma ideologia responsável por perseguições políticas, raciais e religiosas, por uma guerra de proporções catastróficas e pelo assassinato de milhões de pessoas.
Museu do Holocausto
Problema – O nazismo e o holocausto constituem uma das experiências mais traumáticas da história contemporânea. No Brasil, esse passado não é desconhecido. Ele é abordado na educação básica, estudado por pesquisadores, discutido em livros e reportagens e trabalhado por instituições dedicadas à preservação da memória.
Em Curitiba, por exemplo, o Museu do Holocausto desenvolve, desde 2011, atividades de educação, memória e pesquisa, além de produzir materiais para professores e estudantes.
Isso torna o problema ainda mais grave. A existência de informação histórica, de instituições de memória e de iniciativas educacionais não parece ser suficiente para impedir que o nazismo continue sendo utilizado como referência para provocar, ironizar ou simplesmente chamar a atenção nas redes sociais.
O problema, portanto, talvez não seja apenas a falta de informação, mas também a incapacidade de reconhecer que determinados acontecimentos históricos não podem ser reduzidos a uma brincadeira.
Responsabilidade jurídica
Responsabilidade social – É nesse ponto que o episódio de Rio Negrinho merece nossa atenção. Não cabe a mim determinar a intenção de quem produziu o vídeo, tampouco antecipar qualquer conclusão sobre sua eventual responsabilidade jurídica. Isso cabe às autoridades competentes. Mas podemos, desde já, discutir a responsabilidade social envolvida na produção e na circulação de conteúdos que banalizam o nazismo.
Na minha óptica, não é por falta de ensino ou de materiais de História. É, também, porque há pessoas que se recusam a aprender e, principalmente, a levar determinados assuntos a sério, como eles devem ser levados.
A liberdade de brincar, ironizar e produzir humor não significa que toda referência histórica seja igualmente inofensiva. Há coisas com as quais não se deve brincar. O nazismo é uma delas. E ponto final.
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