A série “Almas Gêmeas” e a liquidez do amor
Por Mariano Soltys, filósofo e professor

Uma recém descoberta para mim foi a série “Soul Mates”, que seria traduzida por “Almas Gêmeas”, que se trata de um aplicativo do futuro, que encontra a alma gêmea da pessoa, assim deixando as pessoas, tudo de lado, para fazer o tal “teste”. Trata-se de um “Black Mirror” de relacionamento.
Esse teste muda a vida de casais, de pessoas, e se torna uma espécie de droga, condenada por igrejas e seitas que ao final da série usam desse universo para converter pessoas e as levar para um fim trágico.
O curioso é que a série coloca mulheres em papéis confusos, que procuram o grande amor e largam de tudo por isso, o que não acaba bem, na maioria das vezes. Há uma liquidez de amor sem fim nessa série, lembrando de Bauman.
Relacionamentos reais
Psicologia – O tema de almas gêmeas começa geralmente com o filósofo Platão, em sua obra “Banquete”, falando que homem e mulher eram um ser só, e depois foram separados. Ou que um ser original era uma esfera. Foram divididos pelos deuses e a partir desse estado, procuram a sua alma gêmea.
Mas pela psicologia a ideia de uma pessoa ideal pode gerar diversos conflitos e que relacionamentos reais dependem mais de uma construção, de diálogo, do que de uma obra do destino. Essa visão do destino parece mais algo que se assemelha a mitologia, na tragédia, que em filosofia.
Mundo pós-moderno
Reencontro – Outro tema que parece existir na série é algo de Shakespeare, como em “Um sonho de uma noite de verão”: as pessoas se apaixonam loucamente, vítimas de um feitiço. O tal aplicativo leva as pessoas a uma loucura de procurar mil formas de hedonismo, paixões, e isso não resulta em nada bom socialmente, ou para ser si mesmo. Até no mais secreto e sombrio, algo quase junguiano, o problema pode ficar sozinho no final, e não encontrar um relacionamento saudável e harmonioso.
Mesmo levando a um reencontro de almas, em nível espiritual, isso tudo vai além de nossos aplicativos e tecnologias. O mundo pós-moderno procura mais talvez o lucro com promessas de felicidade, que em uma felicidade legítima.
Episódio
Dinâmica – O elenco é muito bom, como o ator de “O Corvo”, que aparece em penúltimo episódio, além das músicas, como a de Elvis, que ambienta o último episódio, dando uma qualidade a série. Uma boa opção para se pensar mais no que se vive, e até onde a busca desenfreada por uma paixão pode prejudicar o bom que já se possui.
Frente a movimentos que evitam cada vez mais o relacionamento, essa dinâmica parece mais de quem está entre 30 e quarenta anos, que parece ser o público da série. O problema é que a liquidez do amor resulta em vínculos falsos, egoísmo, imediatismo e um vazio existencial.
Fundamentalismo
Busca humana – “Soul Mates” revela um pouco disso tudo, bem como uma crítica ao fundamentalismo religioso e a busca humana de felicidade, a qualquer custo, nesse niilismo contemporâneo.
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