WILSON DE OLIVEIRA NETO: TIRADENTES E A ESCRITA DA HISTÓRIA

SÃO BENTO DO SUL

Até a proclamação da República, ele foi um ilustre desconhecido

Por Wilson de Oliveira Neto, historiador

Serão lembrados na próxima terça-feira (21) os 234 anos do enforcamento do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, no Rio de Janeiro – em 21 de abril de 1792, portanto. As origens da efeméride estão situadas em 1890, quando da instalação da República no País. Porém, ao longo do século passado, ela foi reafirmada em diversas ocasiões. Embora o Dia de Tiradentes tenha, nas últimas décadas, se esvaziado, os seus usos simbólicos não perderam valor.

Pois trata-se de um rico exemplo de como a escrita da história está ligada ao contexto em que ela é produzida. Nesse sentido, faço coro junto ao historiador italiano Carlo Ginzburg, para o qual a historiografia é um meio que serve para conhecermos mais sobre o contexto em que ela é produzida, que dos objetos por ela estudado.

Fazenda
Minas Gerais – Sabemos pouco sobre o Tiradentes da história. Ele nasceu em 1746, em uma fazenda próxima ao arraial de Santa Rita do Rio Abaixo, em Minas Gerais. Foi o quarto filho do casal Domingos da Silva Santos e Antônia da Encarnação Xavier.

Tornou-se órfão aos 11 anos de idade. Após exercer várias profissões, entre as quais dentista, e perambular por diversos locais, Joaquim José da Silva Xavier ingressou no Regimento de Cavalaria de Minas, com a patente de Alferes.

Autodidata, sabe-se que ele foi um militar competente, embora isso não tenha sido reconhecido pelos seus superiores. Insatisfeito, deixou por um tempo o Exército, porém, diante de inúmeras dificuldades financeiras, retornou à carreira militar.

Empobrecido e influenciado pelas ideias iluministas, Tiradentes se envolveu com uma conspiração separatista, entre 1788 e 1789, que ficou conhecida como Inconfidência Mineira.

Capitania
Conspiradores – Delatada ao Visconde de Barbacena, na época governador da capitania de Minas, “o República”, como também era conhecido, foi preso no dia 10 de maio de 1789. Foi processado e condenado junto com outros 28 conspiradores. Desses, apenas Tiradentes foi executado.

Até a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, Tiradentes foi um ilustre desconhecido. O regime republicano foi implantado no Brasil através de um golpe militar sem qualquer apoio popular.

Como ensina o sociólogo francês Pierre Bourdieu, o exercício do poder tem uma ampla dimensão simbólica. Assim surgiu o mito Tiradentes, um personagem importante na mitologia política republicana.

Barba
Cabelos longos – Representado como um homem de barba e cabelos longos, tal como Cristo, simbolizava a presença antiga das ideias republicanas no Brasil. Nada mais anacrônico, já que, segundo os costumes de seu tempo, Joaquim José da Silva Xavier foi enforcado com a barba e os cabelos raspados. Além disso, os historiadores não têm a mínima ideia de como seria o rosto dele, sendo todas as representações imagéticas a seu respeito, na verdade, um grande chute.

A mitologia em torno de Tiradentes foi reforçada durante o Regime Militar (1964–1985), quando, em 1965, ele foi consagrado patrono da nação brasileira. Em uma época em que o Brasil era governado por generais, sua carreira militar foi usada como ícone para valorizar as Forças Armadas que comandavam o País.

Porém, ao mesmo tempo, Tiradentes foi adotado pelos movimentos políticos de Esquerda como um símbolo de rebeldia contra a opressão e o poder. Nesse contexto, foi amplificada a sua relação com o Iluminismo, estabelecida através da leitura de autores, como por exemplo, Locke, Montesquieu e Rousseau. Essa imagem dual de Tiradentes permaneceu firme e forte até o final da década de 1980.

Críticos
Caráter retórico – Para os críticos da História, a história da história de Tiradentes pode servir de evidência para o caráter retórico desta ciência. Em parte, eles têm razão. Mas, cá entre nós, isso já não é novidade. Desde as décadas de 60 e 70 do século passado, estudiosos, tais como os franceses Michel De Certeau e Paul Marie Veyne falam sobre isso.

Talvez resida aí a grande atualidade de recordarmos a execução de Tiradentes. Não como um evento cívico ou um ato de resistência, mas como uma lição acerca da complexidade e da diversidade de apropriações e significados com os quais a escrita da história está envolvida.

Wilson de Oliveira Neto é professor na Universidade da Região de Joinville (Univille) e coordenador do projeto “Divulga”; escreve quinzenalmente para a coluna “A Historicidade das Coisas”, do Jornal Edição Digital

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