O Estado investe mais em narrativas de risco do que em inclusão
Por Diego Andrade, professor

A favelização brasileira, frequentemente tratada como consequência da suposta “desordem urbana”, é, na verdade, produto direto de escolhas estruturais guiadas por interesses da elite econômica que historicamente concentrou terras, infraestrutura e investimentos públicos em áreas valorizadas, relegando os trabalhadores pobres a espaços marginais.
Desde o início da urbanização acelerada do século XX, a elite brasileira atuou no sentido de moldar a cidade para seus próprios benefícios, garantindo eletrificação, saneamento e transporte para seus bairros, enquanto negava esses mesmos direitos às periferias, que cresceram sem qualquer planejamento oficial.
Omissão deliberada
Territórios – Essa geografia desigual, produzida por omissão deliberada, serviu de base para a expansão das favelas, territórios que não surgiram do “improviso popular”, mas da recusa recorrente do Estado em tratar os pobres como sujeitos de direitos urbanos.
Paradoxalmente, essas mesmas elites, responsáveis por empurrar milhões para a informalidade habitacional, publicizam narrativas que culpabilizam os moradores pela precariedade estrutural que enfrentam, naturalizando a desigualdade e legitimando políticas de repressão.
Discurso
“Controle” – É justamente nesse cenário que se insere a recente operação “Contenção”, promovida pelas forças policiais com o discurso de combater o crime e recuperar o “controle” de áreas consideradas críticas.
A operação, embora apresentada como resposta emergencial à violência, opera dentro de uma lógica histórica de gestão da pobreza que não enfrenta as causas sistêmicas do problema ao contrário, reforça a visão de que territórios periféricos representam ameaça à ordem urbana e, portanto, devem ser monitorados, ocupados ou reprimidos.
Ao atuar somente nos efeitos da desigualdade, a intervenção policial aprofunda estigmas e reitera a divisão espacial entre “cidade formal” e “cidade informal”, ignorando que estas últimas só existem porque foram sistematicamente excluídas das políticas públicas que beneficiaram a elite por décadas.
Aparato
Padrão político – A criminalização das práticas cotidianas desses territórios, somada ao uso intensivo de aparato policial, evidencia que a operação “Contenção” não é apenas uma resposta à violência, mas parte de um padrão político que responsabiliza os vulnerabilizados e absolve os verdadeiros arquitetos da desigualdade.
Ao estabelecer o paralelo entre favelização e operação, observa-se que ambas derivam da mesma matriz elitista de controle social. Enquanto a elite usufrui de infraestrutura urbana de alta qualidade, segurança privada e influência política para moldar o território conforme seus interesses, os moradores das favelas historicamente impedidos de acessar direitos básicos tornam-se alvos privilegiados de ações policiais que tratam problemas estruturais como questões de ordem pública.
Ausência histórica
Serviços essenciais – O Estado, alinhado aos privilégios da elite, investe mais em contenção do que em políticas habitacionais, mais em policiamento do que em urbanização, mais em narrativas de risco do que em inclusão.
Assim, a presença policial intensa recente não pode ser dissociada da ausência histórica do Estado em prover serviços essenciais. A operação surge onde faltaram eletricidade, saneamento, moradia digna e oportunidades, e sua existência revela muito mais sobre as prioridades de uma elite que prefere gerir a pobreza por meio da força do que enfrentá-la com justiça social.
Políticas urbanas
Padrão – Enquanto a elite permanecer como principal agente na definição das políticas urbanas, a lógica da criminalização substituirá a lógica da reparação, e o ciclo da desigualdade se renovará. Enfrentar a favelização exige romper com esse padrão: não se trata de conter territórios, mas de conter a desigualdade produzida por séculos de exclusão planejada.
FOTO Paulo Pinto/TV Brasil
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