WILSON DE OLIVEIRA NETO: A DESNAZIFICAÇÃO DO PÓS-GUERRA LONGE DE SER COMPLETA

A HISTORICIDADE DAS COISAS SANTA CATARINA

Quando o passado passa a funcionar como munição política

Por Wilson de Oliveira Neto, historiador

Você já percebeu que nenhum grupo político, seja de Direita ou de Esquerda, gosta de ser associado ao nacional-socialismo? Não é difícil entender por quê. Em nosso imaginário político, o nazismo ocupa um lugar singular: tornou-se uma espécie de sumo mal, uma experiência histórica diante da qual parece não haver espaço para relativizações morais. Adolf Hitler, por sua vez, transformou-se na principal personificação desse mal — uma espécie de Mefistófeles da política.

Um episódio recente ilustra bem essa questão. Em janeiro de 2025, durante uma conversa transmitida pela internet com o empresário Elon Musk, a então candidata da AfD à chancelaria alemã, Alice Weidel, afirmou que Adolf Hitler não era de Direita, mas de Esquerda, chegando a associá-lo ao comunismo. A declaração provocou forte repercussão entre o público. Mas por que uma afirmação como essa provoca tamanha reação?

Origens
1939 a 1945 – As origens dessa associação entre nazismo e o mal absoluto remontam aos anos da Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, especialmente após a entrada dos Estados Unidos no conflito, em dezembro de 1941.

Na perspectiva dos Aliados, a Alemanha Nazista não era apenas um país inimigo: era também apresentada como um adversário moral, cujos valores representavam a negação da civilização, da democracia e da liberdade. É nesse contexto que ganha sentido a conhecida afirmação de Joel Silveira sobre a Segunda Guerra Mundial ter sido a última guerra justa: uma luta contra uma aberração chamada nazismo.

Fim do conflito
Episódio emblemático – O fim do conflito e as revelações dos crimes de guerra e contra a humanidade perpetrados pelos alemães e seus aliados reforçaram essa percepção. A dimensão dos crimes cometidos pelo regime nazista produziu um impacto profundo na opinião pública internacional, particularmente nos Estados Unidos e na Europa.

Anos depois, o julgamento de Adolf Eichmann, realizado em Jerusalém, em 1961, tornou-se um episódio emblemático desse processo. Foi nesse contexto que Hannah Arendt desenvolveu sua conhecida reflexão sobre a “banalidade do mal”.

Décadas seguintes
Testemunhos – Nas décadas seguintes, o conhecimento histórico sobre o nazismo, suas lideranças, suas instituições e a maneira como setores da sociedade alemã assimilaram suas ideias e apoiaram suas práticas tornou-se cada vez mais amplo. Documentos, testemunhos de vítimas e depoimentos de perpetradores passaram a constituir um enorme acervo utilizado pela historiografia e por inúmeras produções culturais e intelectuais.

Guerra Fria
Instrumento político – Ao mesmo tempo, a disputa política entre Direita e Esquerda continuou intensa. Guerra Fria, descolonização, neoliberalismo e tantos outros processos históricos forneceram novos campos de batalha ideológica. Nesse ambiente, o passado passou a ser frequentemente mobilizado como instrumento político e que serve para conferir legitimidade aos próprios projetos e desmoralizar os adversários.

É preciso, entretanto, separar duas coisas que frequentemente são confundidas. Uma delas é o uso irresponsável de rótulos históricos como instrumento de disputa política. Outra, completamente diferente, é a existência concreta do neonazismo. Este não é uma invenção retórica, pois existem organizações, grupos e indivíduos que reivindicam ideias nazistas no Brasil e em diferentes partes do mundo, sendo essas organizações objeto de denúncias e investigações policiais.

Alemanha
Partido – Também é preciso lembrar que a desnazificação do pós-guerra esteve longe de ser completa. Tanto na Alemanha Ocidental quanto na Alemanha Oriental, antigos colaboradores do regime foram, em diferentes circunstâncias, reintegrados à vida social e institucional. O passado nazista não desapareceu simplesmente em 1945.

É justamente por isso que declarações como as de Alice Weidel merecem ser analisadas com cuidado. O problema não está apenas na classificação de Hitler como “de Esquerda” ou “de Direita”. O problema é a utilização seletiva do passado histórico para produzir um efeito político no presente. Weidel não inventou do nada essa interpretação.

Existiu no NSDAP um setor que utilizava uma linguagem socialista e defendia propostas de caráter social-revolucionário. Contudo, ele foi progressivamente eliminado, e uma de suas principais lideranças, Gregor Strasser, foi assassinada em 1934 por ordem de Hitler.

Estudos biográficos
Conjunto – É nesse ponto que a referência de Weidel a Joachim Fest também precisa ser compreendida. Fest é, sem dúvida, um autor importante para os estudos biográficos sobre Hitler e para a compreensão do Nacional-Socialismo. Mas citar um historiador não transforma automaticamente uma interpretação política em conclusão historiográfica. Uma obra histórica precisa ser lida em seu conjunto, confrontada com outras pesquisas e situada no debate acadêmico de seu tempo.

Há muita bola para rolar antes de uma afirmação categórica como a de que Hitler foi simplesmente um político de Extrema-Esquerda. A questão, portanto, não é impedir que a história seja discutida. Mas, discutir a história com mais rigor. O nazismo não pode ser transformado em uma espécie de propriedade retórica de um campo político, utilizada exclusivamente para atacar o outro. Tampouco pode ser reclassificado de acordo com as necessidades eleitorais do presente.

Munição política
Presente – Quando o passado é utilizado dessa maneira, a história deixa de ser objeto de investigação e passa a funcionar como munição política. E talvez seja exatamente esse o ponto mais importante a ser observado nas declarações de Weidel, menos o interesse pela história do que o interesse político em mobilizá-la. O passado, nesse caso, torna-se instrumental — não para compreender o presente, mas para disputar o presente.

Wilson de Oliveira Neto é professor na Univille e coordenador do projeto “Divulga”. Escreve quinzenalmente para o Jornal Edição Digital.

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