WILSON DE OLIVEIRA NETO: O QUE A SÉRIE “ÂNGELA” ENSINA SOBRE O BRASIL?

A HISTORICIDADE DAS COISAS SÃO BENTO DO SUL

O quanto o assassinato dela representa um passado ainda presente?

Por Wilson de Oliveira Neto, historiador

Foi ao ar no início deste mês, pelo canal HBO, a série brasileira “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, estrelada pela atriz Marjorie Estiano e que narra a história da morte da socialite mineira Ângela Diniz, assassinada a tiros pelo seu namorado, o playboy Doca Street, apelido de Raul Fernando do Amaral Street, na noite de 30 de dezembro de 1976, na praia de Búzios, no Rio de Janeiro.

Em sua época, o caso Ângela Diniz mobilizou a opinião pública, sendo Doca Street julgado duas vezes, em 1979 e 1981. No primeiro julgamento, ele foi defendido com a tese de legítima defesa da honra, sustentada pelo criminalista Evandro Lins e Silva, que ao devassar a vida pessoal da vítima, a retratou como uma “prostituta de luxo da Babilônia”, destruindo sua reputação ao mobilizar o imaginário moralista da família brasileira.

Veredicto anulado
Contexto –
Contudo, o veredicto foi anulado e um novo julgamento foi realizado dois anos depois. O contexto era outro e o forte engajamento dos movimentos feministas do começo da década de 1980 produziram um ambiente em que o réu foi condenado a 15 anos de reclusão pelo homicídio qualificado cometido, em regime fechado.

Doca Street foi colocado em liberdade após três anos de pena e teve uma vida relativamente normal, beneficiada pela amnésia social acerca do caso Ângela Diniz e de outras Ângelas vítimas de uma população que mantém as relações mais brutais possíveis entre mulheres e homens. Em 2006, Doca Street lançou um livro em que narrou sua versão dos fatos ocorridos em 1976. Em 2020, ele faleceu aos 86 anos de idade, vítima da Covid-19.

Novos capítulos
Violências
– Os novos capítulos da série vão ao ar nas quintas, sendo a produção de uma qualidade impecável, típica da teledramaturgia nacional. O ambiente cultural e a vida material da elite brasileira do final da década de 1970, na “época dos militares”, retratados na série são convincentes e didáticos para entender um pouco daquele Brasil, do qual muitas pessoas têm saudades.

Como profissional de História, creio que essa representação a respeito da elite brasileira durante o final do Regime Militar (1964-1985) seja um dos pontos altos da série. Contudo, Ângela pode ter dado para quem ela quiser ou ter gozado das benesses de pertencer à elite, porém, ela foi vítima. Ângela Diniz foi vítima de, pelo menos, três formas de violência ainda comuns: patrimonial, física e simbólica que a série expressa de maneira magistral.

50 anos
Mapa Nacional –
Em 2026, o assassinato de Ângela Diniz completará cinquenta anos. Para a História, foi ontem. O Brasil em que ela foi morta, em parte, não existe mais – e muita coisa em nossa sociedade mudou.

Contudo, somente no primeiro semestre deste ano, segundo dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero, 718 feminicídios foram registrados no Brasil, além de uma média de 187 estupros de mulheres por dia e 86 mil denúncias de violência ocorridas no período. Fatos que nos levam a pensar o quanto que o assassinato de Ângela Diniz representa um passado ainda presente.

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