Desconstruir essa herança é um compromisso coletivo, urgente e indispensável
Por Diego Andrade, professor

O feminicídio não surge do acaso, nem de comportamentos individuais isolados: ele é a face extrema de um processo histórico profundo, no qual o machismo estrutural moldou relações sociais, legitimou desigualdades e naturalizou a violência como instrumento de controle sobre os corpos femininos.
Desde os primórdios da formação das sociedades ocidentais, as mulheres foram empurradas para papéis de subordinação, primeiro como propriedade familiar, depois como dependentes do marido, e finalmente como cidadãs de segunda classe diante de estruturas políticas, jurídicas e culturais que privilegiaram, de forma sistemática, a autoridade masculina. Esse longo percurso histórico criou as bases que, ainda hoje, alimentam as condições para que o feminicídio ocorra.
Ideologia patriarcal
Pátrio poder – Durante séculos, a ideologia patriarcal foi ensinada como norma civilizatória. Nas leis, consolidou-se a ideia de que o homem detinha o pátrio poder, tendo autoridade sobre a esposa e os filhos; na religião, reforçou-se o discurso de submissão feminina.
Na economia, as mulheres foram relegadas ao trabalho doméstico não remunerado, dependente e invisível; na cultura, produziu-se a narrativa da fragilidade feminina e da virilidade masculina como sinônimo de domínio.
Essa engrenagem gerou um modelo de convivência baseado na hierarquia de gênero, em que a masculinidade foi associada ao controle e ao direito de impor sua vontade, inclusive pelo uso da violência.
Avanços legais
Raízes – Com o passar do tempo, mesmo com avanços legais e lutas feministas que conquistaram direitos fundamentais, as raízes do machismo permaneceram vivas. O homem que mata uma mulher por considerá-la sua propriedade, por não aceitar o fim do relacionamento, por ciúmes ou por perda de controle, não age fora da ordem social: ele é produto de uma cultura que historicamente normalizou a ideia de que mulheres podem ser corrigidas, punidas e silenciadas. O feminicídio, portanto, não é apenas um crime; é um ato político, resultado de séculos de legitimação da desigualdade de poder entre os gêneros.
Práticas cotidianas
Provedor – O machismo estrutural opera de maneira difusa, atravessando instituições e práticas cotidianas. Ele se expressa na negligência do Estado diante das denúncias de violência doméstica, no descrédito dado à palavra das mulheres, na culpabilização das vítimas, na erotização da violência na mídia, na desigualdade salarial, na sub-representação feminina na política e na romantização do homem ciumento e do homem provedor. Cada uma dessas peças contribui para um ecossistema social onde a violência não apenas é possível, mas muitas vezes prevista e naturalizada.
Políticas públicas
Fenômeno – Por isso, combater o feminicídio exige mais do que punir indivíduos: exige desmontar o edifício histórico do machismo estrutural. Significa rever práticas, revisar políticas públicas, transformar a educação, questionar representações culturais e reconstruir conceitos de masculinidade. Significa entender que não se trata de casos isolados, mas de um fenômeno social que revela um país e um mundo ainda fortemente marcado por desigualdades de gênero que atravessam séculos.
Relações sociais
Ambiente – Assim, abordar o feminicídio implica olhar criticamente para o passado e para as estruturas que moldaram nossas relações sociais. Enquanto a sociedade não enfrentar o machismo em sua raiz histórica, continuará produzindo o ambiente que permite que tantas mulheres sejam assassinadas simplesmente por serem mulheres. Desconstruir essa herança é um compromisso coletivo, urgente e indispensável para construir uma sociedade verdadeiramente igualitária e livre de violência.
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