WILSON DE OLIVEIRA NETO: O PASSADO NAZISTA EM SANTA CATARINA

A HISTORICIDADE DAS COISAS SÃO BENTO DO SUL

Divulgadores devem ter cuidado redobrado quando tratarem o assunto em público, mesmo pelas razões mais justas

Por Wilson de Oliveira Neto, historiador

Costumo acompanhar as publicações dos perfis de divulgação de história em redes sociais dos meus colegas, aqui, em Santa Catarina. De uma forma geral, gosto muito do que leio e, sempre que possível, procuro interagir por meio de curtidas, comentários e compartilhamentos.

Na introdução de um dos seus últimos livros, o sociólogo Manuel Castells afirma que, no presente, vivemos em uma sociedade praticamente digital, em que suas formas de produção, armazenamento e comunicação digitais influenciam diretamente em nossa vida cotidiana. Daí, mais uma razão para a defesa que faço da importância da divulgação de história em meios digitais e da necessidade de valorização desse trabalho nos ciclos de avaliação dos Programas de Pós-Graduação em História pela CAPES.

Polarização
Desqualificação – Contudo, preocupa-me a forma com a qual a história do nazismo em Santa Catarina está sendo abordada pela divulgação de história em redes sociais. Especialmente, em um contexto marcado pela polarização política, em que os usos do passado são essenciais na legitimação de projetos políticos, assim como na desqualificação de adversários, sejam eles “de direita” ou “de esquerda”.

Não nego a existência de ramificações catarinenses da Landesgruppe Brasilien, do NSDAP, durante a década de 1930, quando da sua existência legal no País – em dezembro de 1937, após um Golpe de Estado que instituiu o Estado Novo, Getúlio Vargas colocou na ilegalidade todas os partidos políticos nacionais e estrangeiros existentes no Brasil.

Muito menos, mitigo as relações entre nazismo, imprensa e poderes políticos locais, conforme é possível evidenciar em fontes históricas disponíveis em arquivos históricos e hemerotecas digitais.

Imprensa Oficial
Punhal – Em 1943, a Imprensa Oficial do Estado, em Florianópolis, publicou o livro “O punhal nazista no coração do Brasil”, uma espécie de relatório policial sobre as atividades subversivas dos nazistas e integralistas em Santa Catarina.

Seu autor principal foi o então capitão Antônio de Lara Ribas, da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) catarinense, sendo seu co-autor João Kuehne, ex-redator do jornal “A Notícia”, de Joinville, responsável pela escrita da parte do livro dedicada ao integralismo no Estado. Em 1944, a publicação ganhou uma segunda edição, sendo hoje um item raro e procurado entre colecionadores e pesquisadores.

Devassa
Resultados rápidos – O livro é decorrente de uma devassa feita pelo DOPS no Estado, que desmantelou o que sobrou do NSDAP em Santa Catarina, assim como da Ação Integralista Brasileira (AIB). “O punhal nazista no coração do Brasil” é um trabalho sedutor para quem deseja resultados rápidos para a tarefa difícil de investigar a trajetória dos grupos nazistas no território catarinense, pois oferece documentos oficiais, gráficos/tabelas, fotografias e inúmeras evidências materiais que não colocam em dúvida a existência e o funcionamento de grupos nazistas no Estado, durante a década de 1930.

Contexto
Vandalizados – Porém, o livro é fruto de um contexto caracterizado pelo Estado Novo e entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Nessas circunstâncias, houve o recrudescimento das medidas de nacionalização no Sul do Brasil, com destaque para as comunidades teuto-brasileiras, o reforço do imaginário do “perigo alemão” e a intensificação da vigilância sobre as populações de origem estrangeira, em que pessoas foram presas, entidades comunitárias foram fechadas, sendo seus patrimônios confiscados e vandalizados por efetivos das forças armadas ou policiais.

Dossiê
Provas – Nessas circunstâncias, a publicação do livro “O punhal nazista no coração do Brasil” serviu como uma espécie de dossiê com provas que justificaram uma violência de estado que foi além do combate ao nazismo e integralismo em Santa Catarina.

Embora o livro seja uma importante fonte histórica, ele deve ser usado de maneira crítica, que vai além do seu emprego como banco de dados ou ilustração de publicações em redes sociais. Como toda fonte histórica, ele deve sobre uma boa crítica interna e externa, como por exemplo, a presença de imagens fotográficas na obra.

E, principalmente, deve ser levada em consideração a literatura especializada publicada no Brasil e exterior, pelo menos, desde a década de 1990, quando foi iniciada uma renovação dos estudos históricos sobre o regime estadonovista e seu aparato repressivo do qual o DOPS/DEOPS fez parte.

“Lógica da desconfiança”
Número, gênero e grau – Na “lógica da desconfiança”, todos eram suspeitos. Daí o cuidado redobrado que divulgadores devem ter quando tratarem o assunto em público, mesmo pelas razões mais justas, com as quais concordo em número, gênero e grau.

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