DIEGO ANDRADE: ENTRE O DISCURSO PATRIÓTICO E A VENDA DA BR DISTRIBUIDORA

POLITICANDO SÃO BENTO DO SUL

Por que o governo perdeu instrumentos para segurar o preço da gasolina e do diesel

Por Diego Andrade, professor

Nos últimos anos, o Brasil passou por profundas mudanças no setor de energia, especialmente na estrutura da Petrobras. Uma das decisões mais simbólicas desse processo foi a venda da BR Distribuidora, concluída durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).

A empresa, que por décadas foi um braço estratégico da Petrobras na distribuição de combustíveis, acabou sendo privatizada sob o argumento de que isso aumentaria a concorrência e reduziria preços.

Na prática, porém, o que se viu foi o enfraquecimento da presença do Estado em um setor fundamental para a economia. A BR Distribuidora, que hoje opera sob o nome de Vibra Energia, não era apenas mais uma empresa no mercado.

Ela tinha papel importante na garantia do abastecimento e ajudava a manter certa capacidade de influência pública sobre os preços.

Setor sensível
Preços –
Ao abrir mão desse instrumento, o Estado brasileiro passou a depender ainda mais da lógica de mercado em um setor extremamente sensível para a população. Afinal, o preço dos combustíveis impacta diretamente o transporte, o custo dos alimentos, a inflação e o cotidiano de milhões de brasileiros.

O que chama atenção nesse processo é a contradição política. Muitos dos que hoje se apresentam como grandes patriotas foram justamente os que defenderam a venda de uma das maiores empresas de distribuição de combustíveis do País.

Em nome de uma agenda liberal, entregaram ao mercado privado um instrumento estratégico que ajudava o Estado a influenciar preços e garantir presença nacional no abastecimento.

Paridade internacional
Estrutura –
É verdade que parte da atual estrutura de preços dos combustíveis foi herdada de decisões anteriores. A política de paridade internacional, que vinculava o preço interno dos combustíveis às oscilações do mercado internacional e do dólar, foi adotada anos atrás e acabou ampliando a exposição do Brasil às variações externas.

Porém, foi durante o governo Bolsonaro que essa lógica foi mantida ao mesmo tempo em que ativos importantes da Petrobras eram vendidos, reduzindo ainda mais a capacidade de atuação do Estado no setor.

Custos internos
Mercado brasileiro –
Nos últimos anos, o debate sobre combustíveis voltou ao centro da política nacional. Em 2023, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) promoveu mudanças na política de preços da Petrobras, abandonando a lógica automática da paridade internacional e passando a considerar também os custos internos de produção e as condições do mercado brasileiro. O objetivo foi justamente reduzir a volatilidade e dar maior estabilidade aos preços pagos pelos consumidores.

Consumidor final
Bombas –
Mesmo assim, outra consequência do processo de privatização e da perda de instrumentos públicos no setor aparece com frequência: quando a Petrobras reduz preços nas refinarias, essas reduções muitas vezes demoram ou chegam de forma muito limitada ao consumidor final.

Entre refinarias, distribuidoras e postos, a dinâmica do mercado privado faz com que nem sempre as quedas anunciadas se reflitam rapidamente na bomba.

Cidadão comum
Desenvolvimento –
Energia não é apenas uma mercadoria comum. Em um País continental como o Brasil, o setor energético é fundamental para o desenvolvimento econômico e para a qualidade de vida da população.

A história da venda da BR Distribuidora mostra que, entre o discurso patriótico e as decisões concretas, muitas vezes quem acaba pagando a conta é o cidadão comum toda vez que para em um posto de combustível.

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