WILSON DE OLIVEIRA NETO: AFINAL DE CONTAS, O QUE É O TAL DO “TOTENKOPF”?

A HISTORICIDADE DAS COISAS SÃO BENTO DO SUL

Não existe paternidade cultural nem étnica para esse símbolo

Por Wilson de Oliveira Neto, historiador

Afinal de contas, o que é o tal do “Totenkopf”? estampado na camiseta do estudante da UFRJ, envolvido em um incidente de agressões físicas ocorrido na terça-feira (25), nas dependências do IFCS/UFRJ? Não há uma tradução exata de “totenkopf” para o português. Trata-se, de uma palavra alemã, geralmente, traduzida como “caveira”. E, como é comum a outros símbolos, seus sentidos e significados variam conforme a época e o local.

Muito menos, não existe paternidade cultural nem étnica para esse símbolo. Sabe-se que, inicialmente, ele foi relacionado à morte, uma forma de “memento mori” ou de um perigo de morte eminente.

Adoção
Hussardos – Sua adoção nas tradições militares e políticas de língua alemã ocorreu no Reino da Prússia, em meados do século XVIII, nos contextos das Guerras de Sucessão Austríaca (1740/48) e dos Sete Anos (1756/63), quando o regimento de hussardos liderado pelo barão Joseph Theodor von Ruesch (1709/69) adotou o “totenkopf” como insígnia.

Exército Imperial
Trincheiras – O símbolo foi mantido pelo Exército Imperial Alemão até a sua extinção, em 1918, após o término da Primeira Guerra Mundial (1914/18). Na guerra de trincheiras, as unidades de assalto alemãs, também o utilizaram como insígnia pintada em seus capacetes de aço.

A relação entre o “totenkopf” e as Direitas alemãs pode ser situada no pós-guerra, especialmente, durante os anos iniciais da República de Weimar, marcados pelos movimentos separatistas poloneses na Alta Silésia (1919/21) e pela Revolução Alemã (1918/23).

O “Totenkopf” foi um dos símbolos recorrentes das unidades paramilitares denominadas Freikorps (Corpo de Voluntários, em uma tradução correta para o português) que lutaram contra os separatistas poloneses e comunistas alemães.

Insígnia
Movimento – O movimento nacional-socialista adotou o “totenkopf” como insígnia do Stabswache “Adolf Hitler”, unidade de guarda-costas do líder nazista, que foi o embrião da Schutzstaffel (SS). Durante a Segunda Guerra Mundial (1939/45), o “totenkopf” também foi o emblema da 3. Divisão Blindada da SS-em-armas (Waffen-SS), assim como da SS-Totenkopfverbände, a infame unidade criada em 1933 que foi responsável pela gestão dos campos de concentração e extermínio alemães.

Ainda no contexto da Segunda Guerra Mundial, no âmbito da Wehrmacht, “totenkopf” também foi adotado como insígnia das Divisões “Panzer” da Força Terrestre (Heer) e de uma unidade de bombardeiros da Força Aérea (Luftwaffe) alemãs.

Contrauso
Forças militares – Para além da Alemanha, a caveira sobre os ossos cruzados também foi adotada como emblema de diversas outras forças militares, além do seu contrauso pela banda Death in June, assim como outros músicos e conjuntos. Contudo, em nosso presente, cruzes balcânicas, suásticas e “totenköpfe” estão diretamente associadas ao movimento e regime nazistas, gostem ou não.

Doentio
Mal – “Ah, mas e os símbolos comunistas?”. Por mais atrocidades que o comunismo possa estar relacionado, o impacto da experiência histórica do nacional-socialismo no imaginário é muito mais potente, especialmente, porque desde 1945 o nazismo se tornou uma espécie de síntese de tudo o que é doentio, imoral, mal, pervertido ou sádico, em uma espécie de “meta-mal” contra o qual até a violência física se torna legítima.

Wilson de Oliveira Neto é professor na Univille e coordenador do projeto “Divulga”. Escreve quinzenalmente para o Jornal Edição Digital.

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