WILSON DE OLIVEIRA NETO: A LONGA HISTÓRIA DAS COLEÇÕES

A HISTORICIDADE DAS COISAS SÃO BENTO DO SUL

Colecionar é uma prática que depende de uma capacidade de pensamento simbólico e afetivo

Por Wilson de Oliveira Neto, historiador


Não é de hoje a prática do colecionismo. Atualmente, com o mundial de futebol, colecionar voltou a ser um assunto e uma prática do momento, na medida em que crianças, jovens e adultos estão atrás das desejadas figurinhas para completarem o Livro Ilustrado Oficial Fifa World Cup 2026, nome do álbum da Panini, que está sendo comercializado em bancas de revistas, livrarias, quitandas, supermercados e até mesmo nas lojas da Havan.

Colecionar é uma prática que depende de uma capacidade de pensamento simbólico e afetivo que vai além de uma relação estritamente funcional com os objetos naturais ou produzidos pelo ser humano, como por exemplo, as figurinhas da copa.

Essa capacidade foi desenvolvida somente pela nossa espécie Homo sapiens sapiens, quando nossos ancestrais passaram a enxergar o mundo para além do que os seus olhos mostravam, tornando-se animais existenciais e simbólicos.

Chefes guerreiros
“Tesouros” – Segundo o historiador polonês Krzysztof Pomian, as primeiras coleções estão situadas na pré-história e estão relacionadas à magia, ao sagrado e sobrenatural. Reunidas e acondicionadas em locais especiais, seus usos eram ritualizados e reforçavam a atribuição de sentidos e significados aos mundos de outrora.

No mundo grego, por exemplo, nos antigos Oikos, existia uma prática conhecida como “dom e contra-dom”, que consistiu em uma troca de presentes entre os chefes guerreiros, em que objetos, colecionados e guardados em salas de “tesouros” eram oferecidos como gratidão, homenagem e respeito.

Relíquias
Mártires – E, o que dizer das coleções de relíquias reunidas em diversos lugares da Cristandade, durante a Idade Média? Relíquias dos mártires, santos e santas da Igreja, assim como do próprio Jesus Cristo, a exemplo do Sudário de Turim ou das ampolas com o sangue de São Januário, recolhido após sua decapitação. No filme “Lutero”, de 2003, o rei Frederico III, da Saxônia, possuía uma importante coleção de relíquias em seu castelo, que incluía um galho da sarça ardente de Moisés e leite materno da Virgem Maria.

Com a emergência do mundo moderno, as coleções foram secularizadas e incorporaram exemplares de fauna, flora e minerais, além de instrumentos astronômicos, geográficos e ópticos reunidos em um móvel de madeira conhecido como gabinete de curiosidades.

O colecionismo “moderno” nasceu no contexto do Renascimento, com os antiquários, conforme revelou Françoise Choay, responsáveis pelo desenvolvimento das “ciências auxiliares da História”, como por exemplo, a Numismática, responsável pela reunião e estudo das moedas e afins.

Sociedade de massa
Entretenimento – A partir do nascimento da sociedade de massa, com sua demanda de consumo de massa, o colecionismo, tal como o conhecemos, ganhou forma. Associado à indústria cultural, ele se tornou uma importante mercadoria no mercado do entretenimento, conforme é possível constatar nas figurinhas da copa. Contudo, ele também se tornou uma janela para o mundo e um instrumento de doutrinação política.

Memórias
Época de infância – Contudo, para além dessas e outras apropriações, o colecionismo une as pessoas, que evocam memórias, quando se deparam com um álbum de sua época de infância, ou constroem novas memórias, seja divertindo-se com um filho ou amigo colando ou trocando figurinhas da copa.

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