A discussão ultrapassa a simples posse de um artefato militar
Por Wilson de Oliveira Neto, historiador

A retomada da polêmica entre Brasil e Paraguai sobre a devolução do canhão El Cristiano reacende o debate sobre patrimônio cultural, memória e reparação. Embora a reivindicação tenha voltado ao noticiário em 2026, ela está longe de ser recente.
Desde o século passado, diferentes governos paraguaios reivindicam a restituição do artefato. Já o Brasil sustenta que o canhão integra legitimamente seu patrimônio histórico e que sua eventual devolução depende de complexos procedimentos jurídicos e administrativos.
El Cristiano foi produzido durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), com o bronze dos sinos de igrejas paraguaias. O canhão adquiriu um forte significado patriótico para a sociedade paraguaia. Embora sua eficácia militar seja objeto de debate entre historiadores, a peça tornou-se um dos principais símbolos da Batalha de Curupaiti (1866), considerada a maior vitória militar paraguaia durante o conflito.
1868
Tropas brasileiras – Após a ocupação da Fortaleza de Humaitá pelas forças da Tríplice Aliança, em 1868, o canhão foi capturado pelas tropas brasileiras e, ao término do conflito, transportado para o Rio de Janeiro como troféu de guerra. Desde 1922, encontra-se exposto no Museu Histórico Nacional.
A reivindicação paraguaia fundamenta-se, principalmente, no valor simbólico do artefato. El Cristiano não constitui apenas uma arma de guerra, mas um elemento essencial da memória nacional. Argumenta-se que o canhão representou o esforço coletivo de uma população devastada por um dos conflitos mais destrutivos da história sul-americana e que sua permanência em território brasileiro perpetua uma lógica de apropriação de bens obtidos em contexto de guerra.
Argumento
Troféus – Outro argumento apresentado pelo governo paraguaio é o precedente estabelecido por outros países envolvidos na Guerra da Tríplice Aliança. O Uruguai devolveu parte dos troféus de guerra ainda no século XIX, enquanto a Argentina promoveu restituições em diferentes momentos.
O próprio Brasil também devolveu documentos históricos, manuscritos, a espada do marechal Francisco Solano López e outros objetos durante as décadas de 1970 e 1980, no contexto da aproximação diplomática que culminaria na construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Para Assunção, a devolução do El Cristiano representaria a continuidade desse processo de reconciliação histórica entre os dois países.
Por outro lado
Iphan – Por outro lado, há argumentos consistentes contrários à restituição. O principal deles refere-se à situação jurídica do canhão no Brasil. Em 1998, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o El Cristiano como patrimônio cultural brasileiro.
Em consequência, sua retirada do acervo nacional exige um processo de destombamento, medida excepcional que depende de decisão do Poder Executivo e de outras providências administrativas e legais. Assim, mesmo que exista vontade política para atender ao pedido paraguaio, a devolução não depende exclusivamente de um acordo diplomático entre os dois governos.
Contexto militar
Incorporação de armas – Outro aspecto frequentemente mencionado é o contexto militar da captura do canhão. A incorporação de armas, bandeiras e outros objetos militares como troféus era uma prática amplamente aceita nas leis da guerra, pelo menos, até 1945.
As convenções internacionais que passaram a restringir a pilhagem e disciplinar a proteção do patrimônio cultural durante conflitos armados somente surgiriam décadas mais tarde, especialmente após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Sob esse ponto de vista, argumenta-se que não haveria obrigações jurídica e moral de devolver o El Cristiano.
Controvérsia
Significados afetivos – A controvérsia sobre o canhão El Cristiano ensina que os objetos históricos não possuem apenas valor material ou museológico. Eles carregam significados afetivos, identitários e políticos que variam conforme a sociedade e ao longo do tempo.
Para o Paraguai, o canhão representa resistência nacional diante de uma guerra devastadora; no contexto brasileiro, é parte da memória da participação do Brasil em um dos maiores conflitos militares internacionais da segunda metade dos oitocentos.
Interpretações
Patrimônio – Por isso, a discussão ultrapassa a simples posse de um artefato militar e envolve diferentes interpretações sobre o passado, o patrimônio cultural e a forma como as nações escolhem preservar ou reconciliar suas memórias.
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