Casos emblemáticos ajudam a compreender essa lógica
Por Diego Andrade, professor

A violência no Brasil não pode ser explicada apenas como falha individual ou problema pontual de segurança pública. Ela é parte estrutural da formação social do País e sempre esteve a serviço da manutenção do poder econômico e político. Desde a colonização, a apropriação da terra, o genocídio indígena e a escravidão foram sustentados pela força, criando uma sociedade profundamente desigual.
A burguesia brasileira se forma nesse contexto, herdando o latifúndio e a concentração de riqueza. Com o fim formal da escravidão, não houve redistribuição de terras nem integração social dos libertos. A violência, então, se reorganizou e passou a atuar por meio das instituições do Estado, como a polícia, o Judiciário e as leis seletivas, que reprimem os pobres e protegem os privilegiados.
“Brincadeira”
Cão Orelha – Casos emblemáticos ajudam a compreender essa lógica. O assassinato do indígena Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo em Brasília em 1997 por jovens de classe média alta, foi tratado pelos autores como “brincadeira”, revelando a naturalização da desumanização dos povos indígenas. Já o caso do cão Orelha, embora envolva um animal, evidencia de forma simbólica a lógica da violência seletiva presente na sociedade.
A brutalidade cometida contra um cachorro comunitário, diante da ausência de proteção institucional e da indiferença social, revela como determinadas vidas passam a ser tratadas como descartáveis pelo sistema. Essa mesma lógica se manifesta cotidianamente contra pessoas pobres e marginalizadas, cujas mortes e violências raramente provocam respostas institucionais à altura.
Repressão
“Progresso” – Essa violência é seletiva. Determinados grupos sociais são alvos permanentes da repressão, enquanto outros contam com redes de proteção econômica, política e simbólica. No campo, o agronegócio, herdeiro do latifúndio colonial, avança sobre terras indígenas e comunidades tradicionais com apoio institucional. Quando há resistência, a violência é apresentada como necessidade do “progresso”.
Além da força física, há a violência simbólica, que legitima todas as outras. Ela aparece na culpabilização das vítimas, no discurso meritocrático e na naturalização da desigualdade. Controlar a narrativa é parte essencial da dominação.
Raízes históricas
Herança colonial – Enfrentar a violência, portanto, exige mais do que repressão policial. Exige enfrentar suas raízes históricas, democratizar o acesso à terra, à renda e ao poder e romper com a herança colonial que sustenta os privilégios da burguesia no Brasil. Enquanto essa estrutura permanecer intacta, a violência continuará sendo um dos pilares da ordem social.
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