WILSON DE OLIVEIRA NETO: “BANDIDOS”, “MOCINHOS” E ALEMÃES EM SANTA CATARINA

A HISTORICIDADE DAS COISAS SÃO BENTO DO SUL

Afirmar que os imigrantes ganharam terras é um exemplo recorrente desse tipo de distorção

Por Wilson de Oliveira Neto, historiador

Entre os anos de 1820 e 1970, estima-se que 5,6 milhões de pessoas emigraram para o Brasil, egressas de diversos países e nacionalidades. A maioria dos imigrantes se estabeleceu nas regiões Sudeste e Sul, com destaque para o Estado de São Paulo.

A memória e a história da imigração são campos de disputas e servem de mote para manifestações de preconceito regional no País, a exemplo de um casal catarinense, cujo vídeo viralizou na internet, assim como as inúmeras respostas a ele.

Porém, é a história que paga a conta por esses e outros usos do passado marcados pelo anacronismo, pela imprecisão factual e que colaboram com inúmeras práticas distorcionistas tanto pelos “bandidos” quanto pelos “mocinhos”.

Afirmar que os imigrantes alemães ganharam terras em Santa Catarina é um exemplo recorrente desse tipo de distorção, usada como resposta às manifestações de preconceito regional por parte de catarinenses raízes, que, fantasiados de Fritz e Frida, falam tanta bobagem que faria o Opa passar vergonha alheia.

Colonização europeia
Terra –
A colonização europeia no Sul, onde estão localizados Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, teve como objetivo ocupar espaços considerados pelo governo imperial “vazios demográficos”, que abririam o caminho para a interiorização do País. No contexto do século XIX, foram fundadas colônias situadas nos vales de grandes rios, baseadas no regime de pequena propriedade rural familiar.

Os empreendimentos coloniais foram privados ou públicos, isto é, decorrentes de sociedades colonizadoras ou dos governos imperial e provinciais, como por exemplo, em Santa Catarina, nas cidades de Joinville e Blumenau. É verdade que o acesso à terra pelos imigrantes poderia ocorrer por meio de “doação” de terras devolutas pelo Império.

“Reforma agrária”
Arquivo Histórico –
Contudo, é exagero falar em “reforma agrária”, além desse processo ter sido irregular e encerrado a partir de 1850, quando a Lei de Terras mudou as regras legais para o acesso à propriedade da terra entre brasileiros e estrangeiros. Se você duvida, faça uma visita ao Arquivo Histórico de Joinville (AHJ) e consulte as inúmeras Kaufbriefe dos lotes da antiga Colônia Dona Francisca.

Outros aspectos importantes que devem ser considerados são o isolamento dessas comunidades, a ausência de infraestrutura pública, a precariedade da vida material nos primeiros anos de colonização e os conflitos com populações “caboclas” e indígenas, a exemplo da ação de bugreiros em Santa Catarina, responsáveis pelo extermínio de aldeamentos indígenas no interior do estado, a exemplo dos laklãnõ.

Camponeses
Revoluções –
A maioria dos imigrantes alemães era formada por camponeses que emigraram para fugir do processo de proletarização decorrente da modernização da “Antiga Alemanha”, que, a partir de 1871, se tornou a nação alemã unificada (Deutsches Reich). Junto com eles, também emigraram contingentes de Lumpenproletariat e liberais fugidos das revoluções de 1830 e 1848.

Urbanização
Núcleos coloniais –
Entre o final dos oitocentos e o início do século XX, começou o processo de urbanização dos antigos núcleos coloniais situados no Sul do Brasil. Esse fato resultou na formação de cidades de pequeno e médio portes, que guardam características dos locais de origem dos seus fundadores, cuja história é formada por nuanças, grandezas e misérias, que não torna Santa Catarina melhor ou pior que os demais Estados do Brasil.

Wilson de Oliveira Neto é professor na Universidade da Região de Joinville (Univille) e coordenador do projeto “Divulga”; escreve quinzenalmente para a coluna “A Historicidade das Coisas”, do Jornal Edição Digital.

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