MAURÉLIO MACHADO: ANTIGAS CARTAS

POETEIRO DE RUA SÃO BENTO DO SUL

Confira mais um trabalho do nosso Poeteiro de Rua de São Bento do Sul

Por Maurélio Machado, Poeteiro de Rua

Estava muito frio, o mercúrio do termômetro parecia congelado nos 2ºC e a chuva carregada pelo vento sibilante não dava trégua. A casa estava aquecida, no fogão de lenha tocos de bracatinga crepitavam quebrando o silêncio reinante.

Osvaldo levantara-se cedinho, teria que ir à vila próxima para comprar suprimentos, o armário da cozinha estava quase vazio. Observou o abrigo ao lado do casebre, o velho pangaré tiritava de frio, precisava arreá-lo para seguir pela trilha lamacenta para chegar a vendinha.

Ranger de porta
Soleira – Ranger de porta, ao derredor as árvores contorciam-se castigadas pelo vento, arrepiou-se… da soleira da porta observou a massa de névoa que encobria a vegetação, pios de pássaros ocultos na mata pareciam anunciar nova tempestade.

Fechou a porta. Amanhã irei, hoje não saio de casa nem que a vaca tussa. Recostou-se no banquinho ao lado do fogão, a chaleira d’água quente lançava vapores de fumaça que se diluíam suavemente no ar. Da parede acima da mesa da cozinha o velho cuco anunciava: 6h da manhã.

Caixa de sapatos
Mimos –
Osvaldo empertigou-se, já era hora de um mate quente, o amargo chimarrão, cuia, bomba e erva as mãos, preparou o delicioso chá tão apreciado pela gente do Sul. Ficou ali mateando, matutando sobre a vida, lembranças passadas. Tornou ao quarto e abriu a porta do tosco guarda-roupa…

Lá estava ela, a caixa de sapatos em que guardava pequenos mimos e recordações: o par de alianças, óculos de sol, o relógio de pulso, poucas fotografias e algumas desbotadas cartas… o maço de papéis amarelados enlaçados por uma fita azul, titubeou, mas assim mesmo desenlaçou-os vagarosamente.

Beira da cama
Adeus –
Sentou-se na beira da cama, as mãos tremulavam, desdobrou-as cuidadosamente temendo que se desmanchassem sob o toque áspero.

Transladou-se ao passado, alegres e tristes recordações assomavam-lhe a mente, abriu a carta derradeira, uma violeta ressecada, colada na desbotada carta  encimava a despedida:

-Adeus, Osvaldo, tenho que partir, não me procure mais, nosso amor é impossível, meus pais jamais aceitariam que eu me casasse com o filho do caseiro de nossa chácara, lembre sempre de mim pois eu jamais o esquecerei. Beijos… Renata. Olhos cheios de lágrimas, Osvaldo largou as cartas sobre a cama e retornou à cozinha, do armário apanhou a aguardente e murmurou: até nunca mais querida!

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