MARIANO SOLTYS: FILME “O CORVO” E A (NÃO) MORTE DOS ANOS 1980-90

FILOSOFIA DO SUL SÃO BENTO DO SUL

Um filme para ver numa vista de cemitério, numa noite povoada por vampiros e lobisomens

Por Mariano Soltys, filósofo e professor

Filme não bem quisto pelo público, “O Corvo” vem na sombra do clássico, que muitos já devem ter visto na sessão da tarde da TV, com o tema da morte e do simbólico corvo, na época o Brandon Lee, que morreu.

Mas na versão nova, a temática ficou mais agressiva, num existencialismo que beira o Cult e na base de livro de Arthur Rimbaund e na letra da música de Cascadeur, de Meaning, levando a uma constante reflexão sobre justiça, ética, existência e morte – e mais, sobre o amor que nunca morre, levando a pensadores que sempre comentamos, como Schopenhauer, Platão, Nietzsche e Sartre.

Cominação explosiva
Bruxa –
O filme começa numa combinação explosiva: prisão +amor. Na fuga de uma bruxa, que ameaçava uma garota na prisão, ela e o namorado, o protagonista, filho do ganhador do Globo de Ouro, fogem da prisão, com a música oitentista-noventista de Disorder, de Joy Division.

Isso já revela o público que o filme buscava: quarentões e nostálgicos. E dizem que o filme foi ruim!  Noutra hora emenda uma música de Gary Numan, que antes eu conhecia apenas por Cars, mas agora M.E. ficou na lembrança, mais uma vez com o clima das antigas. Nesse ambiente gótico, restou a morte antecipada, bem como a vingança pela amada ceifada pelo destino.

Animal de rapina
Sombrio –
Assim, “O Corvo” volta guiado pelo animal de rapina, imortal e cheio de sangue nos olhos, mesmo que de um sangue preto. Também ao tocar Traitrs, achei ter ouvido The Cure, e assim ser sugado pelo sombrio do filme, que somava com grande violência a batalha contra o bruxo hipnotizador, que manipula pessoas, para que revelem o pior de si mesmas, dando cabo as suas vidas.

Vontade
Energia –
Mas o amor é vontade de viver, como ensinava Schopenhauer, então a morte não desafia essa energia infinita e imortal. O corvo guia, nessa morte que não existe para oitentistas e noventistas, que agora podem pagar o cinema, ou buscar o filme que teve seu antecessor numa versão mais infantil.

Mas a morte é coisa para maturidade. No novo Corvo, classificado para adultos, parece haver uma grande vingança contra a hipnose do mal, contra aqueles que tentam interromper o amor. Também uma crítica ao uso de drogas. Sartre ensinava que a existência termina com a morte.

Fênix
Cavaleiro –
O corvo não morre. Ele é como a fênix, mas em vez de se alimentar de fogo, ele se alimenta da morte. Já o amor é, no dizer de Platão, o maior dos deuses. O curioso é o anti-herói em “O Corvo”, estilo Batman. Um cavaleiro das sombras, da noite – e da vingança. Um filme para ver numa vista de cemitério, numa noite povoada por vampiros e lobisomens.

Reflexão
Que pena…
– Mas também com a reflexão sobre a morte, ainda mais o que já morreu, uma tradição de anos 1980-90, mas que se torna imortal pela arte mais sincera, no estilo Brandon Lee. E uma nova guerra fria e nova ordem. Pena que o pessoal não entendeu a qualidade do filme e julgou ser não tão bom. 

Foto Miramax/Divulgação

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