O genial personagem de Vagner Moura acha estratégias para conviver com um ambiente inóspito
Por Mariano Soltys, filósofo e professor

Estrelado pelo brasileiro Vagner Moura, premiado com o Globo de Ouro, bem como tratando do tema do oceano e de um futuro incerto, “A Última Casa” é uma mistura de Guerra dos Mundos com Bird Box.
Começando com a frase de Arthur Clarke: “É estranho chamar este planeta de Terra, quando é claramente um Oceano”. O nosso planeta talvez devesse se chamar de Planeta Água. Mas não apenas de um oceano belo que se pode pensar, mas habitado por monstros, sereias e seres misteriosos. Um oceano menos explorado que o espaço sideral.
Simbiose
Peixes – O tema de se ficar preso na casa, nos leva a pensar até onde o oceano seria uma casa, e até onde nossa posição e nossa alimentação ameaçam a sustentabilidade do oceano, que, além de peixes, tem muitos seres e um lado desconhecido. Há a necessidade da simbiose, o que o filme ao final tende a mostrar. O monstro lembra algo de Lovecraft, e seu Cthulhu, espécie de deus misturado com polvo. E sua arma é o mar, no qual controla as pessoas com uma chuva que sempre surge, as aprisionando em suas casas.
Armadilhas
Chaminé – Mas o genial personagem de Vagner Moura acha estratégias de conviver com esse ambiente inóspito, caçando animais pela chaminé, no qual lança armadilhas, no estilo de vara de pescar. Lovecraft tem uma espécie de cosmicismo, onde o ser humano não é o centro das coisas, e no caso do filme, parece mesmo não ser.
O homem seria irrelevante e prestes a ser extinto. Nesse niilismo existencial, restam poucos – e ficam numa situação sem saída, de aporia. O filme “A Última Casa” leva quase a se desistir, mas a persistência garante a conivência com os monstros do mar.
CuriosoFundo do mar – O curioso da família que fica presa na casa, é que eles não conhecem seus vizinhos. Também não conhecemos nossos irmãos marinhos. Após a crise alimentar, bem como o cárcere caseiro, eles trocam cartazes com frases motivacionais. As crianças crescem até a adolescência, e as fugas e alternativas encontram no esgoto alguma esperança.
O fundo do mar é uma espécie de espaço, e seus habitantes, extraterrestres. Já nós somos parte da terra, mas também parte da água, uma vez que como dizia o filósofo Tales de Mileto, tudo é água. O filme nos mostra esse mistério de monstros e lugar sem saída, que é nossa existência.
Foto Netflix/Reprodução
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