Deveria ser inaceitável utilizar a morte de alguém como oportunidade para destilar ódio
Por Diego Andrade, professor

Na semana passada, a morte de um amigo, figura histórica da política de São Bento do Sul, provocou – além das manifestações de pesar –, uma série de comentários nas redes sociais que chamaram atenção pela violência e pela ausência de humanidade. Entre eles, houve pessoas que comemoraram a morte ou afirmaram que determinada pessoa “já foi tarde”, simplesmente em razão de sua trajetória e de suas posições políticas.
Mais do que uma questão relacionada a partidos ou ideologias, esse episódio deveria provocar uma reflexão sobre o momento político que estamos vivendo e sobre os perigos da radicalização. A história demonstra que sociedades democráticas não são construídas pela eliminação das diferenças, mas pela capacidade de conviver com elas.
Desumanização
Intolerância – Ao longo da história, períodos de intensa polarização política frequentemente produziram a desumanização do adversário. Quando o outro deixa de ser visto como cidadão e passa a ser tratado como inimigo, torna-se mais fácil justificar o ódio, a intolerância e até a violência.
A experiência de diferentes regimes autoritários e dos grandes conflitos políticos do século XX demonstra onde esse processo pode chegar quando o diálogo e o respeito são substituídos pela lógica do “nós contra eles”.
Ideias diferentes
Direitos – A democracia pressupõe justamente o contrário. Ela existe porque pessoas diferentes possuem o direito de defender ideias diferentes. O adversário político pode estar profundamente equivocado aos nossos olhos, pode representar tudo aquilo que rejeitamos e ainda assim continua sendo um ser humano, portador de direitos e de dignidade.
Não é necessário concordar com a trajetória política de alguém para reconhecer sua importância histórica. Também não é necessário transformar uma pessoa em herói após sua morte. É perfeitamente legítimo fazer críticas, apontar erros e discordar de suas posições. O que deveria ser inaceitável é utilizar a morte como oportunidade para destilar ódio político.
Comportamento
Lógica – Esse comportamento revela uma preocupante transformação da política em uma espécie de disputa moral absoluta, na qual o adversário não é mais alguém que pensa diferente, mas alguém que supostamente merece desprezo.
Essa lógica, além de empobrecer o debate público, alimenta um ambiente em que qualquer agressão passa a ser justificada em nome da defesa de uma determinada ideologia.
Rupturas
Autoritarismo – A história política brasileira também nos ensina que a democracia é resultado de conquistas que não podem ser tratadas como permanentes. O direito de organização partidária, a liberdade de expressão, o direito ao voto e a possibilidade de defender diferentes projetos de sociedade foram construídos em meio a conflitos, rupturas e períodos de autoritarismo.
Por isso, justamente em uma sociedade democrática, precisamos preservar a capacidade de discordar sem odiar. A política deve servir para discutir projetos, ideias e caminhos para o país, e não para determinar quem merece ou não respeito enquanto ser humano.
Rótulos
Identidade – O extremismo político, independentemente de onde venha, começa quando deixamos de enxergar pessoas e passamos a enxergar apenas rótulos. Quando a identidade política de alguém se torna suficiente para que sua morte seja comemorada, talvez seja necessário perguntar até que ponto a política deixou de ser uma ferramenta de transformação social e passou a ocupar um espaço de intolerância.
Que esse episódio sirva, portanto, não para aprofundar ainda mais as divisões, mas para lembrar uma lição fundamental da história: nenhuma sociedade democrática sobrevive por muito tempo quando transforma adversários em inimigos e quando a divergência política passa a justificar a desumanização do outro.
Lados
Debates – Podemos escolher lados na política. Podemos defender partidos, candidatos e projetos diferentes. Podemos travar debates duros e necessários. Mas há uma linha que não deveríamos ultrapassar: a perda do respeito pela vida humana.
Porque, quando a política nos faz comemorar a morte de alguém apenas por pensar diferente, não estamos fortalecendo nossas convicções. Estamos, pouco a pouco, enfraquecendo a própria democracia.
WhatsApp – O grupo de WhatsApp do Jornal Edição Digital pode ser acessado aqui.



